‘Sou apaixonada por ensinar’, diz professora de inglês com deficiência visual

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“I help you to study. Eu te ajudo a estudar”. É assim, no esquema de tradução, que funcionam as aulas da professora de inglês da professora Josiele de Lima, de 26 anos em Poços de Caldas (MG). Mas quem vê a jovem ensinar a língua estrangeira não imagina os obstáculos que ela teve que superar para se tornar professora.

Prematura de seis meses, ela teve a retina queimada por excesso de oxigênio ainda na incubadora e perdeu 100% da visão, mas nunca desanimou por causa da deficiência. “Estou apaixonada por ensinar”, afirma ao ser questionada sobre a profissão que assumiu há seis meses. Duas vezes por semana, ela se desloca do bairro onde vive para o Centro da cidade para dar aulas em uma turma mista e “especial”, formada apenas por deficientes visuais.

Para Josi, como é conhecida, a oportunidade de lecionar não é apenas prazerosa, como desafiante. “Eu gosto bastante, mas também acho que é um desafio e tanto passar o que sei para outras pessoas. Estou muito feliz porque o conhecimento que passo está sendo absorvido pelos alunos e o fato de ser uma turma de deficientes visuais nos coloca no mesmo nível, no entanto, eu pretendo lecionar para turmas regulares também”, pontuou.

A ideia da escola é garantir o acesso ao ensino e por isso, em parceria com a Associação de Assistência aos Deficientes Visuais (AADV), que fornece livros em braile, montou uma turma com alunos bolsistas, conforme explicou a coordenadora da instituição, Michelle Franco. “Nós queremos garantir ao acesso das pessoas ao ensino e convidamos a Josi para dar estas aulas, já que ela e os estudantes estão na mesma condição e o ensino flui até melhor, mas nossa ideia é também que ela ministre aulas para turmas de alunos videntes, como são chamados os que enxergam normalmente”, comentou.

As aulas
Durante as aulas, os estudantes que possuem deficiência utilizam livros em braile e os que têm baixa visão utilizam o material ampliado. As correções das lições são feitas por e-mail e a expectativa é de que eles façam um módulo por semestre.

Para quem frequenta as aulas, essa é uma oportunidade de ampliar os conhecimentos e agregar valor ao currículo, como disse o estudante João Gabriel Lopes do Val. “Aprender inglês vai abrir mais portas na minha vida. Vou ter uma vantagem no mercado de trabalho para quem não fala inglês”, disse.

Quem também acredita nisso é a doceira Giane Cancian, de 38 anos. Ela confessa que antes não tinha tido vontade de cursar inglês. “Eu tinha uma resistência muito grande por causa do inglês da escola regular, mas agora, com uma turma específica, estou me sentindo muito a vontade e aprendendo rápido  também”, pontuou.

Trajetória
As oportunidades nem sempre surgiram facilmente na vida de Josiele. Na infância, ela frequentou a AADV para ser alfabetizada em braile e a partir dos sete anos, entrou na escola regular. Em seguida, conseguiu uma bolsa de estudos de 100% na universidade, onde fez Letras. Para isso, precisava viajar diariamente cerca de 40 km, de Poços de Caldas a São João da Boa Vista (SP), onde fica o campus.

“Era um pouco mais complicado do que hoje porque não tínhamos tanta tecnologia. A tecnologia ajuda muito quem tem deficiência visual. Mas, o mais difícil mesmo é quebrar a barreira do preconceito, já que muitas pessoas acham que os deficientes não são capazes, mas nós somos”, pontuou.

Prova disso é que a contrapartida para estudar na universidade era integrar um projeto de inclusão, onde ministrava aulas de braile e computação para deficientes visuais e também para pessoas que enxergam.

Atualmente, ela mora com os pais, vai até o trabalho de ônibus e pratica diferentes atividades, além de se preparar para cursar pós-graduação em educação especial.  “Eu costumo brincar que a única coisa que nós, deficientes visuais, não podemos fazer é dirigir, o restante, tudo é possível”, disse.

Por isso, Josi incentiva as pessoas a ‘enxergarem’ para além dos preconceitos e a lutarem pelo que desejam. “Se eu puder dizer algo para alguém, diria para que não fiquem trancafiados em casa, valorizando apenas os problemas e achando que a vida acabou. Tem que dar a volta por cima e ir à luta”, finalizou.

Foto: Jéssica Balbino/ G1
Fonte: G1 – Sul de Minas