‘Dó para nós é só uma nota musical’, diz regente de coral de cegos

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Fiéis da igreja católica celebraram na sexta-feira (13), o dia de Santa Luzia, considerada a protetora dos olhos e intercessora pela cura de doenças relacionadas à visão. É comemorado também em 13 de dezembro o Dia Nacional do Cego. Em Bauru (SP), um coral de alunos com deficiência visual preparou canções natalinas que foram apresentadas durante a comemoração da data no Lar e Escola Santa Luzia.

Na regência, está o professor Estevam Rogério da Silva, de 36 anos, formado em música pela Universidade do Sagrado Coração (USC) de Bauru. Ele, que já nasceu sem enxergar, foi convidado para retomar o coral do Lar e Escola Santa Luzia. “Houve a oportunidade de detalhar um pouco mais os arranjos, trabalhar com outra roupagem a questão do coral. É uma proposta pedagógica e inclusiva. Até porque temos pessoas com deficiências múltiplas no coral. E o principal intuito que falo para eles é levar alegria para as pessoas. Não queremos que a pessoa olhe para a gente e tenham dó. 'Dó', para o deficiente visual, é só nota musical”, diz o regente.

O G1 conheceu o projeto da entidade, que teve início em março deste ano. A entidade atende pouco mais de 40 pessoas e o coral tem a participação de quase metade dos alunos com deficiência visual. São iniciantes na arte de cantar de todas as faixas etárias. Para a presidente da entidade, Nilce Regina Capasso Canavesi, o coral é a realização de um sonho.
“Sempre gostei muito de música. E a falta da visão sempre aumenta o interesse pelo som. Achamos que não ia ter muita adesão, mas todo mundo quer entrar no coral. Está sendo a realização de um sonho antigo”, enfatizou. A regência do coral de cegos, claro, não tem gestos e nem a batuta nas apresentações e nos ensaios. “A dinâmica, o andamento e a expressão são combinados no ensaio. Na hora a gente estala os dedos para começar. E se alguma coisa ficar fora de controle, eu falo com eles”, explica Estevam.

O repertório do coral é praticamente com o gênero da Música Popular Brasileira. Mas, para o final deste ano, eles incluíram algumas canções especiais da época, como “Então é Natal" e "Marcas do que se foi".

De acordo com o regente, a pessoa com deficiência visual é como outra qualquer em relação à percepção dos sons. “Muita gente acha que o deficiente visual tem um ouvido mais aguçado. Isso não é verdade. O que acontece é que o deficiente visual acaba tendo que perceber as coisas por outros sentidos. No som também é assim: existem pessoas com deficiência visual que desafinam até para bater palmas. É uma pessoa como qualquer outra. Se você começar a treinar o seu ouvido ele vai ficar apurado”, explica.

Focado na inclusão social, a possibilidade de profissionalização do coral ainda é distante, mas não impossível. “Caminhamos para evoluir cada vez mais. Já temos o coral com arranjos em três vozes. O avanço é cada vez maior”, avisa Estevam.

Por meio da voz e, claro, da música, os alunos transmitem emoção e dedicação. Entre os integrantes do coral estão Ana Lucia, de 36 anos, Braz, de 61, Cristiano, de 38, Josiane, de 21, Lucas, de 20, e Inah Arruda Ferreira, de 93 anos. Com uma vontade de viver de dar inveja, ela é considerada uma das mais ativas da entidade. O que demonstra que para ser feliz não é preciso enxergar o mundo com os olhos. “Logo que entrei no lar já pedi para entrar no coral. Não tenho voz bonita, mas procuro fazer bonito. Quero aprender tudo ao mesmo tempo porque tenho pouco tempo de vida. Adoro estar no coral”, completa.

Foto: Alan Schneider / G1
Fonte: G1 Bauru e Marília