Moda adaptativa: Tommy Hilfiger conversa com a Vogue sobre a linha Adaptive

Apesar de 24% da população brasileira ter algum tipo de deficiência, a moda ainda é um segmento pouco explorado

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Conhecido por seu tino de negócios, Tommy Hilfiger começou seu império com US$ 150, mas não são apenas os negócios que o move. Pai de três autistas, a marca hoje é a maior referência em moda adaptável e inclusiva entre as grandes grifes, justamente por ele ter vivido de perto a dificuldade que sua família encontra ao se vestir. A Tommy Adaptive, lançada em 2016, chega no no e-commerce da marca no Brasil. 

“Sempre foi meu sonho construir uma grife global da qual todas as pessoas possam fazer parte. Tenho conhecimento de causa de como é difícil para algumas pessoas com deficiência se vestirem. A moda é sobre a auto expressão, e ninguém deveria ficar de fora dessa experiência”, diz Hilfiger em entrevista à Vogue.

O design adaptativo, que ajusta as modelagens das roupas para pessoas com deficiência, tem um valor de mercado potencial de US$ 64,3 bilhões, de acordo com a Coresight Research, mas segue pouco explorado. “Eu queria que outras grifes nos seguissem, mas isso tem acontecido de maneira muito devagar, o que para mim é incompreensível. Não sei porque mais empresas não estão se juntando a nós.”

 As modificações precisam ser diversas e específicas para considerar a ampla gama de necessidades, desde as sensibilidades vivenciadas por clientes com autismo, até a especificidade de uma pessoa com paraplegia. Pesquisas e muito feedback de pessoas usuárias são cruciais no processo. Calças para cadeirantes, por exemplo, precisam levar em conta o posicionamento de costuras e bolsos para garantir o conforto e a facilidade de movimento. Zíperes que podem ser acionados com uma única mão, botões magnéticos e fechamentos com velcro são alterações a serem consideradas. Quando Hilfiger entrou neste mercado, ele era ocupado basicamente por marcas de roupas funcionais e terapêuticas, pensadas sobretudo para pessoas idosas. 

“Desde que lançamos, seguimos aumentando a oferta de produtos e oferecendo designs mais alinhados com as tendências. Começamos com básicos, mas esses consumidores também querem roupas fashion.”

Manter a estética da marca nas peças adaptadas é uma prioridade inabalável, ele garante. “Não queremos que as pessoas saibam que há uma diferença. É importante ter a mesma qualidade, as mesmas cores, o mesmo design. Eu sei que as pessoas querem sair na rua sem chamar atenção para si, querem usar as mesmas roupas que seus amigos. Há diferentes grupos e é importante que quem tem deficiência possa estar em qualquer turma que quiser.”

O MERCADO PCD

No Brasil, há 45 milhões de pessoas (24% da população) com algum tipo de deficiência (algum grau de dificuldade para enxergar, ouvir, caminhar, subir degraus ou deficiência intelectual), enquanto 12,5 milhões de pessoas (6,7% da população) possuem grande ou total dificuldade nestas habilidades, de acordo com um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2010. Além disso, dados da Subsecretaria de Inspeção do Trabalho, do Ministério da Economia, divulgados em 2021, apontam que o número de PCDs no mercado de trabalho é de cerca de 372 mil, um aumento de 14,11% em relação às vagas ocupadas por este público em 2015, que somavam pouco mais de 326 mil. Mas a percepção é de que este grupo que trabalha e que possui poder de compra ainda passa despercebido pelo mercado. Em termos globais, segundo estimativa do Banco Mundial, 15% da população (aproximadamente 1 bilhão) possui alguma deficiência.

Paulo Matos, diretor da Tommy Hilfiger no Brasil, afirma que, com este lançamento da linha Adaptive no país, não busca um crescimento agressivo ou lucros, mas sim perceber e atender essas pessoas e suas necessidades para que sejam de fato incluídas na moda. A princípio, projetam vender 25 peças por mês, número que deve aumentar quando alcançarem reconhecimento.

Um ponto importante neste debate é que o capacitismo (discriminação de pessoas com alguma deficiência) ainda é uma questão no atendimento a PCDs, seja presencial ou virtual. Uma loja adaptada precisa, por exemplo, de provadores acessíveis a cadeiras de rodas, mais espaço para circulação, araras de diversas alturas, sinalizadores de preços pensados para quem não vê ou enxerga pouco, e treinamento em inclusão para vendedores. Em relação às compras online, é crucial usar fontes, cores e layouts inclusivos para uma variedade de necessidades visuais e cognitivas, além de disponibilizar vendas guiadas por navegação de voz e levar em conta embalagens que são fáceis de abrir.

A mudança mais importante para atender a esta demanda envolve praticar a inclusão. Empregar PCDs e integrar essas pessoas em cada processo da produção é o caminho certeiro. Quando perguntado sobre sua posição como pioneiro neste movimento, Hilfiger responde com modéstia. “Isso não é sobre mim. Por muitos anos, as pessoas com deficiência tiveram que descobrir como se vestir com roupas feitas para as massas. É uma enorme alegria saber que isso está mudando.”

Fonte: Vogue Brasil

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