Embaixadores da Alegria: escola de samba deve trazer muito mais que folia

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Daniel Limas, da Reportagem do Vida Mais Livre

Embaixadores da Alegria é a primeira Escola de Samba inclusiva. Na verdade, ela é muito mais que isso. Ao longo dos seus seis anos de existência, já beneficiou mais de 7.500 pessoas com deficiência e seus familiares. No entanto, o trabalho social desta instituição não fica só na folia. Ao longo do ano, são realizadas as Oficinas de Carnaval da Alegria, para capacitar pessoas com e sem deficiência para o mercado de trabalho, além de diversas outras atividades. A escola é também conhecida por ter criado o primeiro carro alegórico acessível do mundo.

O trabalho desta escola já foi parar em Londres e, em breve, é esperado que desembarquem cheios de alegria e inclusão em outras cidades.

Abaixo, confira entrevista com Caio Leitão, um dos sócios-fundadores da escola, que traz detalhes sobre o surgimento da Embaixadores, história, objetivos, luta e perspectivas futuras.

Vida Mais Livre: Como surgiu a ideia de criar a Embaixadores da Alegria?
Caio Leitão: Surgiu de uma semente brotada da cabeça do Paul Davies. Um insight, a partir de uma grave contusão na coluna, que o deixou impossibilitado de desfilar na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro. Mesmo assim, ele foi à Avenida e viu a sua escola do coração desfilar com alguns integrantes com deficiência.

Emocionado, veio a pergunta: “Como seria para aquelas pessoas que estão permanentemente impossibilitados de locomoção?”. Surgiu, então, a ideia de fazer um projeto que atendesse a todas as pessoas com deficiência que gostassem de carnaval.

Com a entrada de amigos [Caio foi um deles], o projeto saiu do papel e ganhou vida. Foram criados planejamentos estratégicos de comunicação, posicionamento, propostas de patrocínio, construção de marca, estrutura jurídica, objetivos e missões. A Embaixadores da Alegria se tornou  uma organização sem fins lucrativos e ganhou musculatura com o seu empreendedorismo social e sua exclusiva metodologia de inclusão.

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Vida Mais Livre: Quais são os principais objetivos da Embaixadores da Alegria?

Caio Leitão: O principal objetivo da Embaixadores da Alegria é fazer a inclusão social via arte e cultura do carnaval. Além disso, é fomentar a acessibilidade e os direitos humanos das pessoas com deficiência e com baixa mobilidade; promover e fixar o Rio de Janeiro como a capital cultural mais acessível do Brasil; e auxiliar no desenvolvimento motor e intelectual da pessoa com deficiência.

Vida Mais Livre: Ao longo do ano, como são os projetos da Embaixadores da Alegria? O que é feito para a inclusão das pessoas com deficiência?
Caio Leitão: A Embaixadores da Alegria realiza, ao longo do ano, as Oficinas de Carnaval da Alegria, que têm o objetivo de capacitar pessoas com e sem deficiência para o mercado de trabalho. Além disso, a Escola procura realizar um calendário cultural diversificado, como: Arraiá da Alegria, Feijoadas e eventos para promover a inclusão nos 365 dias do ano.

Vida Mais Livre: Hoje, com vocês captam recursos? Recebem apoio de quem?
Caio Leitão: A Embaixadores da Alegria tem plano comercial baseado nos módulos social e cultural. O primeiro é fundamentado nas leis de incentivo, verbas de marketing e doações de pessoas físicas. Já o segundo, é feito via convênios públicos e editais estaduais, federais, municipais.

O principal patrocinador desta iniciativa é a MAN Latin America, montadora dos caminhões Volkswagen, além da Prefeitura do Rio de JaneiroLIESA e G.R.E.S. São Clemente.

Vida Mais Livre: Quantas pessoas são beneficiadas pelos projetos?
Caio Leitão: Em mais de cinco de anos de trabalho, a Embaixadores já beneficiou mais de 7.500 pessoas com deficiência e seus familiares. Com as oficinas de Carnaval da Alegria, a Embaixadores já formou mais de 50 pessoas para a indústria do artesanato e carnaval.

Na sua grande maioria, as mães foram as que mais aproveitaram essa oportunidade. Elas são as principais replicadoras da metodologia do trabalho das oficinas da Embaixadores e as protagonistas da vida real dessas pessoas com deficiência.

Vida Mais Livre: Pensaram em desistir algum dia?
Caio Leitão: A dúvida faz parte do processo de crescimento e do sucesso. Sem a reflexão e sem obstáculo, não há amadurecimento do trabalho. Existem os prós e os contras quando se é pioneiro em iniciativas socioculturais: é bom porque abrimos um grande caminho para aqueles que não tinham coragem de fazer uma ação social; por outro lado, o desbravamento é doloroso, cheio de preconceitos e incertezas.

A montanha russa do mercado, as crises mundiais e a falta da cultura das marcas aqui no Brasil em patrocinar a longo prazo levam a inúmeros dissabores no percursso. Entretanto, o sentido de fazer o bem, a determinação de contar uma nova história a partir da empatia, da possibilidade de ressignificar vidas e de olhar a sociedade coletivamente torna o nosso trabalho ininterrupto, inefável.

Vida Mais Livre: Conte, por favor, algumas histórias que mais marcaram a Embaixadores.
Caio Leitão: Sem dúvida nenhuma, a mais marcante foi a produção do primeiro carro alegórico 100% adaptado do carnaval brasileiro. Uma façanha pensada, não pelo caráter estético, mas também pela funcionalidade. A equipe de artistas, juntamente com a direção da escola, desenvolveu um carro com elementos sensoriais para deficientes visuais, auditivos e físicos. Definitivamente, um caminhão de alegria feito sob medida para o carnaval da Embaixadores da Alegria. No carro, foi confeccionada uma rampa frontal de aproximadamente 9 metros de comprimento, com o ângulo corretamente estabelecido pela ABNT, ou seja, totalmente acessível.

O “Palhaço da Alegria”, como foi chamado, teve mais de 20 pessoas em cima fazendo coreografias, e ainda contou com explosões de confetes ao longo do desfile. Um das produções mais marcantes da Embaixadores da Alegria dentro e fora da Marquês de Sapucaí.

Vida Mais Livre: Quais são os planos futuros da Embaixadores? Existem planos de expansão para outras cidades?
Caio Leitão: A Embaixadores da Alegria já vem fazendo um trabalho além dos cinquenta minutos da Marquês de Sapucaí e, com isso, vem se tornando referência na inclusão das pessoas com deficiência, tanto aqui no Brasil quanto na Inglaterra. Desde 2011, a Embaixadores vem fazendo um intercâmbio cultural para exportar serviços, cultura e metodologias para organizações sociais de Londres.

Aqui no Brasil, por meio de parcerias com a Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República, a ideia é fazer núcleos da alegria espalhados em cidades reconhecidamente culturais, pelas suas festas regionais. Por exemplo: “Bumba Meu Boi da Alegria” (Maranhão e Parintins), “Frevo da Alegria” (Recife), “Axé da Alegria” (Bahia), entre outras cidades.

Vida Mais Livre: Existe uma quadra para vocês realizarem os ensaios? Onde são realizadas as outras atividades?
Caio Leitão: Não. Em 2011, a Embaixadores solicitou um galpão ao prefeito do Rio de Janeiro, que prontamente ficou de verificar a possibilidade de nos acomodar no centro do Rio. Contudo, as mudanças na cidade, por causa das Olimpíadas, e a revitalização da Zona Portuária impossibilitaram a rapidez deste processo de doação.

Com a aquisição por parte da Prefeitura, o imóvel se tornará mais do que uma quadra de escola de samba – ele poderá se tornar um centro cultural da alegria, onde poderão ser feitas consultas fisioterápicas, psicológicas e médicas, aulas de teatro, de dança, de percussão, esportes adaptados, oficinas, palestras, congressos, trabalhos audiovisuais, exposições históricas sobre o samba e muito mais.

Vida Mais Livre: Qual o enredo deste ano? Quantas pessoas desfilam este ano?
Caio Leitão:
 A Embaixadores entra na avenida com cerca de 1500 pessoas com e sem deficiência, cerca de 25% a menos do que o ano anterior. Os investimentos foram inferiores aos do ano passado e, por isso, houve esta redução no número de foliões no desfile.

O enredo é uma homenagem a todas as mães que fazem a diferença nesta vida. Ele começa pela a mãe natureza, passa pelas mães mais incríveis do reino animal, até as mães guerreiras, mães lutadoras, mães de leite, mães polvo (que têm braços para diferentes tarefas do dia), mães coruja, mães donas de casa, mães chefes de família, mães de fé … até a nossa mãe padroeira do Brasil, a Nossa Senhora de Aparecida.

Vida Mais Livre: Quantas pessoas trabalham na Embaixadores?
Caio Leitão:
 Na parte executiva, trabalham cinco pessoas multidisciplinares, que atuam nas áreas de logística, produção, marketing, assistência social e cultura. Durante a produção de um carnaval ideal, com investimentos altos, a escola chega a fazer a gestão de mais de 80 profissionais, ao longo de cinco meses de trabalho.

Vida Mais Livre: Antes da criação da Embaixadores, como era a presença das pessoas com deficiência no Carnaval? Isso tem mudado?
Caio Leitão: 
A Embaixadores da Alegria vem transformando o carnaval do Rio no mais acessível do mundo. A atuação da escola vem lançando luz a um tema monocromático, cheio de preconceito, e vem quebrando a timidez das famílias em colocar seus filhos com deficiência fora de casa para curtir a vida, para viver a cultura da cidade. E é por isso que a Embaixadores da Alegria é mais do que uma escola de samba: é uma escola de vida.

Pelo sexto ano consecutivo, a Embaixadores da Alegria fez a maior inclusão do carnaval do Brasil, pois, no nosso desfile, pessoas com todos os tipos de deficiência – variando da deficiência física, visual, auditiva, intelectual, até as mais graves, como a paralisia cerebral – são beneficiadas.

Em cinco anos, a nossa organização já levou mais de 7.500 pessoas, gratuitamente, à Marquês de Sapucaí, tocou mais de 240 minutos de sambas exclusivos e produziu o primeiro carro alegórico 100% adaptado do carnaval brasileiro.