Leandra Migotto: Batalhas pela educação

Sua altura e dificuldade de locomoção nunca impediram Leandra Migotto Certeza de estudar. Com inúmeras dificuldades, não só de locomoção, tornou-se jornalista. Conheça sua história.

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Apesar de estar em nossa Constituição e ser um Direito Universal, ter acesso à educação não é algo muito fácil para a maioria das pessoas com deficiência. São inúmeras as dificuldades encontradas por quem quer estudar. Os que conseguem cursar graduação em uma universidade são exemplos de superação. Nascida em 1977, Leandra Migotto Certeza é jornalista, e atua pela defesa dos Direitos Humanos das pessoas com deficiência. Seus 96cm foram causados pela Osteogenesis Imperfecta, que é uma formação óssea imperfeita, que pode acarretar, entre outros fatores, em baixa estatura e dificuldade de andar, mas, principalmente, fragilidade óssea devido a não absorção de cálcio.

Cursar o pré-primário (como era chamado o atual Ensino Básico) só foi possível graças à amizade de seus familiares com diretores de uma escola. Para brincar com seus amiguinhos, usava seu bumbum para correr pelo pátio junto com eles. Para subir em uma cadeira ou escada, pegar livros em estantes ou ir às excursões sempre precisava contar com a ajuda de alguém.

Aos seis anos de idade, após ser alfabetizada, passou a estudar em uma escola “especial”. Sua mãe até tentou matricular Leandra na antiga primeira série em um colégio para alunos sem e com deficiência, mas não conseguiu. Ela se recorda que nessa época, a professora tinha era obrigada a ter habilidade de ensinar crianças com diferentes graus de deficiência e séries distintas. Todos saiam prejudicados, claro.

Nessa época, também se recorda de algo horrível, em sua opinião: a existência de uma grade que os separava das crianças “normais”. Até o pátio para tomar lanche era separado. Novamente graças à sua mãe, voltou a estudar em 1986 em uma escola “comum”, e lá permaneceu até a antiga oitava série. Nesse local, ela foi bem mais feliz e pôde contar com pessoas éticas e responsáveis, que nunca a deixaram se sentir menor ou maior do que ninguém. Lá fez muitos amigos e amigas.

No colégio regular, encontrou outros alunos com alguma deficiência. No primeiro ano, eram quatro: ela, um menino com paralisia cerebral, uma menina surda e um garoto com deficiência auditiva. Com 17 anos, solicitou ao colégio reformas que oferecessem melhores condições de acessibilidade, mas enfrentou inúmeras resistências, pois era a única a usar cadeira de rodas. Apesar disso, na maioria das vezes, não ficava de fora de nenhuma atividade. No entanto, como a maioria dos adolescentes nessa fase da vida, nunca se sentia à vontade quando o assunto era amor ou sexo. Apesar de o tema ser tabu para a maioria, para Leandra, certamente, era diferente.

Em 1996, passou no vestibular para cursar Comunicação Social em uma faculdade particular. Lá também encontrou dificuldades de acessibilidade – a sala de aula localizava-se no segundo andar do prédio e era preciso subir uma escada de mais de 20 degraus. Por esse motivo, ela pouco descia durante os intervalos e, assim, ficava segregada do convívio com os outros estudantes. Novamente se sentiu no direito de reclamar e, depois de dois meses de muito sacrifício, conseguiu mudar de sala. Também lutou para conseguir vagas no estacionamento e banheiros acessíveis. A batalha só foi vencida em seu último dia de aula, quando encontrou as reformas necessárias.

Bacharel em Comunicação Social pela Universidade Anhembi Morumbi desde 1999, Leandra atua em defesa dos Direitos Humanos das Pessoas com Deficiência pela ONG Conectas. Hoje, é responsável pela Revista “Ciranda da Inclusão”, da Editora Ciranda Cultural, é colunista voluntária da Agência Inclusive, e repórter voluntária da Rede SACI -USP, desde 2000. No entanto, sua vontade de escrever começou cedo – aos nove anos – relatando por meio de poemas e crônicas sua vida como cidadã com deficiência. Seu próximo passo é cursar a pós-graduação em Jornalismo Literário. Para quem que conhecer mais sobre Leandra, a sugestão é acompanhar seu blog.

Qual é a importância de seus pais na sua formação educacional?
Eu sou uma das pouquíssimas pessoas com deficiência da década de 70 que teve grandes privilégios em todos os setores: saúde, educação, lazer etc. Minha família me proporcionou sempre o melhor. Fui alfabetizada aos cinco anos em uma escola regular com outras crianças sem deficiência, estudei em colégios particulares e conclui uma faculdade.

Aos seis anos de idade, você estudou em uma escola especial para crianças com deficiência. O que você se lembra dessa época?
Lembro que os professores tinham que fazer milagre, pois tinham o árduo e mágico objetivo de ensinar crianças com diferentes graus de deficiência e séries distintas. Em meio às lições de alfabetização, que eu já dominava, crianças com comprometimentos mentais dividiam a atenção com as que possuíam dificuldades de mobilidade, como eu. É claro que todos saiam prejudicados, pois além de não termos nossas especificidades respeitadas, não tínhamos a mínima possibilidade de desenvolvermos nosso potencial. Sem dúvida, o fato mais marcante e, que, infelizmente, ainda é encontrado em alguns Estados do Brasil é a existência de uma grade que nos separava crianças ditas “normais”. Isso era um horror! Parecia que iríamos transmitir alguma doença contagiosa ou aterrorizar as outras crianças com a nossa aparência diferenciada.

O que mais você se lembra do colégio na época de sua adolescência?
Raramente, ficava fora das atividades. Mas, nessa época, os assuntos sobre sexo e relacionamentos amorosos eram complicados. Creio que esse tabu ainda é um dos mais complexos de serem quebrados, pois a sexualidade de uma pessoa com deficiência, infelizmente, ainda é um mito para muitas pessoas. E naquela época, como eu não tinha um distanciamento com a adolescência; conhecimento sobre o assunto; e nem experiência profissional na área da inclusão, sofri bastante com os olhares assustados dos colegas, principalmente dos garotos. Na hora de paquerar as meninas, todos, sem exceção, simplesmente e friamente, desviavam o olhar de mim. Eu chorava muito por não ter a altura normal (pois até hoje meço 1 metro de altura), pernas retas e um bumbum no lugar, usar um par de muletas e parecer um “ser estanho” perto de qualquer menina de 17 anos.

Hoje, você está vivendo um grande amor, correto?
Sim. Estou com Marcos dos Santos desde outubro de 2005. Conheci o amor da minha vida, a minha alma gêmea, em uma associação de pessoas com deficiência. Ele é o melhor amigo de um grande amigo meu, e tem sequelas de poliomielite.

Você encontra mais ou menos dificuldades de locomoção hoje quando comparamos com sua infância ou adolescência?
Quando comecei a namorar e na época da faculdade sempre enfrentei muitas dificuldades de locomoção. Minha família não pode mais pagar táxi ou dar carona, então peguei muito ônibus sem adaptação e fui conduzida na cadeira de rodas por ruas terrivelmente esburacadas. Hoje em dia, infelizmente, as dificuldades continuam. Os ônibus demoram muito, o serviço que informa os horários dos ônibus adaptados não funciona. Andar em ônibus sem adaptações me causa muita insegurança, além do incômodo de ser carregada.