Flávio Peralta: Um choque na vida

Flávio Peralta estava trabalhando e recebeu uma carga de 13.800 volts. A falta de segurança no trabalho amputou-lhe dois braços. Hoje, Flávio Peralta faz palestras sobre o tema e administra um site. Conheça sua história e os caminhos deste vencedor.

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Quem assiste as primeiras frases da palestra de Flávio Peralta discursando sobre Segurança no Trabalho não imagina as mudanças que este assunto promoveu em sua vida. A primeira delas foi ter se tornado palestrante, algo impensado até agosto de 1997 – já ministrou mais de 200 palestras desde 2007.

A importância da Segurança no Trabalho é censo comum. Certamente, não há quem diga o contrário – no entanto, ainda há empresários que não dão a devida importância ao tema. Nas apresentações de Flávio, o diferencial é sua experiência de vida. Ele sempre procura deixar claro que um acidente é algo muito pessoal e doloroso. Mostra também que somente um acidentado carrega o peso das sequelas. Mais que isso, Flávio faz questão de reforçar que a vida continua após um acidente e que é possível encontrar um novo caminho ou porque não, novos.
Foi em agosto de 1997, na cidade de Londrina, no Paraná, quando tinha 29 anos, que novos caminhos começaram a ser apresentados para Flávio. Ele trabalhava em uma empresa que fazia troca de transformador de alta tensão. Após o almoço, ele e outros colegas de trabalho saíram para trabalhar em uma chácara. Ao chegar no local, fizeram os procedimentos comuns e prepararam as ferramentas necessárias. Na sequência, Flávio começou a subir a escada e recebeu um choque de 13.800 volts – para se ter uma ideia da potência da descarga elétrica, bastam 500 volts para imobilizar uma pessoa com uma arma de choque. A eletricidade elétrica entrou pelo braço direito, passou por seu corpo e descarregou no pé direito.
Só não caiu do alto da escada porque ficou preso ao cinto e pendurado ao poste. No chão, agora acordado, gritava de dor. O socorrista fez um corte em sua perna para aplicar morfina e constatou que os braços estavam pretos, sem circulação. Aí começa mais um longo caminho percorrido por Flávio. Ao chegar ao hospital, lúcido, foi direto para a UTI. Mas esses eram ferimentos que não preocupavam tanto os médicos. Seus rins não estavam funcionando – foram três dias urinando sangue. Depois disso – 10 dias -, a preocupação seria tentar recuperar os braços queimados. Flávio estava inconsciente e não tinha a mínima noção do que estava acontecendo. Não havia recuperação. Era, realmente, necessário amputar os membros. “A autorização para fazer a amputação ficou para os meus pais. O que não deve ter sido muito fácil para eles. Foram seis assinaturas ao todo. Pois, amputava um pedaço e necrosava. Aí eu voltava para outra cirurgia para amputar mais um pouco”, lembra.
“Eu soube que estava amputado somente quando saí da UTI. Senti um vazio muito grande dentro de mim, olhava para baixo e não via mais minhas mãos. Sofri muito e ficava pensando o que seria de mim quando voltasse para casa. Felizmente, pude contar com todos os parentes, que me ajudaram muito”, conta. Depois da amputação, houve uma infecção nos braços e Flávio voltou para a mesa de cirurgia para amputar mais uma parte dos braços. Próximos passos: curativos. “Quando a enfermeira chegava no quarto, eu tinha vontade de sair correndo. Sentia uma dor insuportável na hora da limpeza dos curativos. Então, colocavam gazes na minha boca para poder gritar de dor e para que as outras pessoas não se assustassem com os meus gritos. Quando olhava para meus braços cor de cereja ficava horrorizado. Os médicos diziam que teria que ficar nessa tortura por mais de 70 dias. Mas, ao final de 3 semanas, eu já estava preparado para a primeira plástica”, recorda.
Nova fase: cirurgias plásticas. A primeira etapa consistia em retirar parte da pele da perna para fazer o enxerto nos braços. Mais 40 dias no hospital. Agora seria momento de preparar os braços para colocação das próteses. “Meu braço esquerdo teria que ser alongado em cerca de 6 cm com a ajuda de um aparelho, o Ilizarove, colocado no cotovelo. Na verdade, é colocar um monte de ferro dentro do osso. As dores foram insuportáveis”, conta. Ele se lembra que tudo tinha corrido bem. No entanto, quando os médicos foram retirar o equipamento, Flávio teve um choque anafilático, causado pela anestesia. “E lá fui eu parar na UTI de novo. Deu tudo certo e fui embora no outro dia”, explica. Ao todo, foram nove meses com este aparelho que precisa ser apertado periodicamente.
Próximo passo: fazer um enxerto na pele que estava fina para suportar a prótese. “Nova cirurgia. O médico tentou tirar a pele da barriga, mas houve rejeição. Então, os médicos colaram o braço na minha barriga por 30 dias. Deu certo. A pele da barriga foi parar na ponta do braço. Depois de tudo isto, já tinha feito mais de 11 cirurgias”, lembra. Agora, Flávio estava pronto para colocar as próteses. Ao todo, Flávio acredita ter ficado uns 150 dias internado. Na maioria dessas horas, era acompanhado por sua irmã Fátima, casada e com dois filhos. “Ela deixava sua família para estar comigo. As crianças sentiam muita falta da mãe. Outras vezes, minha irmã Maria Helena estava comigo”, conta agradecido.
Antes de colocar a prótese, foram necessários dois anos de fisioterapia em solo e mais um ano de fisioterapia na água. Na verdade, ela persiste até hoje. “Eu mal conseguia parar em pé, me equilibrar ou sentar. Glauce e Silvana me ajudaram a redescobrir os novos movimentos. Tenho alguns nomes que nunca vou esquecer: Glauce, Silvana, Ligia, Gisele e Diana.”
Os caminhos impostos pela vida o obrigaram a mudar sua vida completamente. “Aprendi a me tornar dependente de alguém para tudo e a esperar o momento do outro. Precisei ter momentos de calmaria para dar o passo seguinte. Duas coisas mudaram demais: a vida pessoal (ter me casado e ter sido pai) e a vida profissional (montar o site e dar palestras de segurança no trabalho). Hoje sou reconhecido pelo Brasil, sendo um amputado dos braços. Talvez não tivesse isso se não tivesse sofrido o acidente”, explica.
Flávio casou-se em 2001 e tem um filho de 6 anos. Para ele, casar e ser pai era algo muito distante dos seus sonhos. “Sem braços, quem iria querer casar comigo. Mas, Deus colocou uma assistente social na minha vida, a Jane, e nos transformamos juntos nessa caminhada. Ter o Vinicius também foi um presente. Ele é meu companheirão e está presente comigo nas palestras e feiras”. O sitewww.amputadosvencedores.com.br surgiu no início de 2001. Seu livro, “Amputados Vencedores, porque a vida continua…”, lançado recentemente, começou a ser trilhado em 2002, mas ficou abandonado até 2008, quando Flávio estava mais experiente e mais vivido. “Tanto eu quanto minha esposa (que também sofreu um acidente de moto em 1981 e tem deficiência física) lemos o livro “Feliz Ano Velho”, de Marcelo Rubens Paiva, e imaginamos escrever nosso livro para que se tornasse leitura de um amputado ou dos familiares que passam por situações semelhantes”, explica.
Seus caminhos também não o pouparam de preconceito. “Todo ser humano é avaliado pelo olhar do outro. Nessa avaliação há momentos de admiração, outros de indignação, outros de horror e pena. Quando esse olhar é para alguém com algum problema físico tudo fica um pouco mais difícil e parece muito maior. Com a ajuda da minha esposa, entendi que devo continuar fazendo tudo, independente do olhar do outro. Claro que quando estou com a prótese do braço esquerdo parece que isso fica menor. Por isso, no meio social prefiro estar com ela”, desabafa. Por falar em próteses, ele decidiu não usar a do lado direito por ser incômoda e pesar 2,7 Kg.