Meu melhor presente

Compartilhe:

Tenho um irmão que é quase nove anos mais novo do que eu. Desde que me lembro dos meus aniversários, seu nascimento era o meu desejo na hora de cortar o bolo. Quando escolhi seu nome, Guilherme, não sabia o significado, que é guardião.

De certa forma, desde bebê, meu irmão já contribuía para a minha reabilitação, fazendo-me exercitar para pegar uma bolinha que ele teimava em jogar para fora do berço. Eu apoiava na grade, abaixava e pegava a bola. Fazia esse movimento umas mil vezes.

Lembro-me do dia que ele falou sua primeira palavra: “Tati”. Ele ainda não conseguia dizer “Nathi”.

Mais tarde, quando já andava, o Guilherme me ensinou a correr. Ele amava brincar de espada e ir ao meu quarto enquanto eu fazia a lição de casa. Entrava só para me dar umas boas porradas, até que eu levantasse e tentasse correr atrás dele. E a passos nada firmes eu tentava devolver o afeto. Com a mão esquerda apoiada na parede eu me esforçava para bater nele, mas, na maioria das vezes, acabava caindo no chão. Era engraçado, pois ele parava só para me deixar dar o troco.

Logo que ganhou um quadriciclo, se empolgou a me levar para dar uma volta. Fui na frente dele me apoiando em seus braços. A verdade é que meu irmão nunca encarou minha deficiência como um impedimento para fazermos algo juntos.

Hoje, ele com 17, eu com 26, pude perceber que essa diferença de idade, na prática, foi e é indiferente. E a minha deficiência não nos subtraiu em nada de ter uma vida típica de dois irmãos. Na verdade, ela só fortaleceu.

Recentemente, entrando em um restaurante de braços dados com ele, percebi que uma pessoa não parava de nos olhar. Os olhares também continuavam enquanto ele cortava a comida para mim. Foi a primeira vez que meu irmão se incomodou com uma situação desse tipo. Mas mesmo sendo o foco das atenções, não deixamos de desfrutar do nosso jantar.

Nessas horas, penso como sou grata pelo meu guardião. Um guardião que não vê obstáculos para viver a vida de forma plena. Sei que, juntos, nos adaptamos para qualquer situação. Porque não há aventura onde não caiba nosso amor, capaz de ignorar qualquer julgamento.

Aos meus pais, só posso agradecer pelo meu melhor presente da vida.

Foto de moça cadeirante levada por um jovem. Ele a inclina e os dois sorriem.
Nathalia e seu irmão. Foto: Arquivo pessoal.

11 respostas para “O que aprendi ao falar no TEDx Talks”

  1. Bom dia. Sou pessoa que gagueja e a vida toda sofri com essa dificuldade. Não consigo me expressar a maneira que gostaria. A gagueira me causa sofrimento, tenho 36 anos e sempre gaguejei. No trabalho isso me causa desconforto, porque as pessoas não entendem o que é a gagueira, alguns riem, outros fazem piadas, outros tem pena de mim. Em entrevistas de emprego sou excluída.
    Não sou uma pessoa considerada ” normal”, mas também não sou considerada deficiente. Esse projeto de lei me trouxe esperança. Muito obrigada pela postagem.

  2. Vcs que tem alguma diferença física dos outros, nuncam se sintam inferiores, somos todos iguais. Deus, Ele nos fez perfeitos com muito amor e todos somos capazes, nunca deixe se elevar pelo sentimento ruim de alguém que não sabe se expressar, qualquer ser humano pode superar suas dificuldades, se orgulhe de vcs, são capazes de fazer sempre o melhor, e use a seu favor: a paciência, benovolência e a calma e toda a sabedoria que vcs tem. Um grande abraço meus irmãos.

  3. em algumas companhias de avião (Latam, Gol…) só é permitido o voo gratuito do def.fisico em caso de tratamento médico comprovado, para isso deve preencher cadastro valido por um ano, no caso do acompanhante terá 50% de desconto na viagem. melhores informações no Youtube “Pessoas com deficiência terão passe livre em aviões” ou similares. boa sorte

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *