Cristiana Soares: sociedade ainda tem dificuldade para aceitar diversidade

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Daniel Limas, da Reportagem do Vida Mais Livre
Soares é autora do livro “Por que Heloísa?”, lançado em agosto de 2007 pela Cia. das Letrinhas. O livro traz a história real de uma menina que tem paralisia cerebral e nos faz pensar na deficiência do ponto de vista da inclusão.
Essa menina, no caso, é inspirada em sua filha Luísa, hoje com 16 anos, que teve uma paralisia cerebral logo após o parto. Nessa entrevista exclusiva para o Vida Mais Livre, Cristiana fala sobre a história do livro, e conta um pouco sobre as dificuldades encontradas com a educação de sua filha. Além disso, assim como no livro, traz sua opinião sobre inclusão e diversidade.
Cristiana é redatora e apaixonada por comunicação e internet. Você também pode conhecer mais sobre o trabalho da autora no blog Por que Heloísa? ou no blog CrisTalk.
Confira.
Cristiana abraçada à filhaVida Mais Livre: Como surgiu a ideia de escrever “Por que Heloísa?”?
Cristiana: Surgiu a partir da experiência pessoal com a minha filha Luísa, hoje com 16 anos, que tem paralisia cerebral. Mas, foram meus amigos que me incentivaram a escrever um livro para contar a história da minha filha, mas com foco nas crianças. E como eu trabalho com comunicação, sou redatora e tenho blog, tudo se encaixava.
VML: Por que escrever um livro para as crianças e não para os adultos?
Cristiana: Eu tenho mais fé nas crianças que nos adultos. Elas não estão contaminadas pelas crenças da nossa sociedade como os mais velhos. É uma geração nova, que cresce com novos paradigmas. Outro motivo é que durante as minhas tentativas de incluir a minha filha, percebi que faltava um mundo lúdico para crianças. Tudo ficava mo mundo racional do adulto.
VML: Quais são seus principais objetivos com a publicação do livro?
Cristiana: Pretendia levar o tema da deficiência para que as crianças refletissem e discutissem e também ser levado para escolas e ser utilizado como material de debate e educação. A inclusão é uma experiência muito recente e ainda há muitas perguntas e respostas que não descobrimos. Como consequência do livro, tenho participado de diversas palestras e também estou trabalhando na adaptação do conteúdo do livro para animação. Não quero que o livro fique só nisso.
VML: Houve muita dificuldade para publicar o seu livro?
Cristiana: Incrivelmente, não encontrei muitas dificuldades, como a maioria das pessoas encontra. Acredito que isso tenha acontecido porque eu preparei uma defesa por escrito, fiz estudo mercadológico, acrescentei contexto histórico, falei sobre a aprovação de leis para incluir as pessoas com deficiência, mas que na prática ainda não funcionam. Mencionei as ações do MEC para a inclusão das pessoas com deficiência. Acredito que tudo isso tenha me ajudado, além claro, do conteúdo. Também pude contar com o apoio de Ivan Zigg, ilustrador do livro, e meu amigo pessoal. Até que em agosto de 2007, foi publicado pela Cia. das Letrinhas.
VML: Você comentou sobre as suas dificuldades para a inclusão social da Luísa. Fale um pouco sobre isso.
Cristiana: Inicialmente, nos primeiros anos de vida da Luísa, fiquei muito ocupada com as questões relacionadas à educação dela. Depois, me voltei mais para as questões sociais. É quando a criança cresce, sai do núcleo familiar e vai para o mundo. Numa primeira fase, ela estudou em escola especial. Com o tempo, me conscientizei de movimentos inclusivos nas escolas regulares. Há muita dificuldade, muita luta, pois a sociedade não está preparada para lidar com pessoas com deficiência.
VML: Você acredita que ainda hoje haja essa dificuldade de inclusão?
Cristiana: Sim, infelizmente. Atualmente, muita gente coloca a culpa nas escolas. Mas, acredito que a inclusão começa pelos pais da criança com deficiência. Muitos têm medo de levar a criança para a escola. Por isso, costumo puxar muito a orelha dos pais. A maioria superprotege seus filhos, o que aumenta a dificuldade para inclusão. Assim, as crianças não experimentam a vida. Então, recomendo que os pais tenham mais ousadia.
  
VML:  Na sua opinião, as escolas estão preparadas para educar as crianças com deficiência?
Cristiana: As escolas ainda não estão preparadas, mas se não fizermos nada, elas nunca vão se preparar. Por isso, reforço que mesmo sem o preparo, devemos deixar nossas crianças com eles, pois só assim eles vão criar novas técnicas e aprender a lidar com esta situação. Também acredito que estudar em escola regular é direito das crianças e não é uma decisão dos pais. A criança com deficiência deve estar junto com as outras crianças. Sei que não é fácil, diversos problemas surgirão, mas não se pode desistir. É nosso dever ajudar a questionar a educação que está estabelecida há muito tempo. Hoje, a educação não respeita a individualidade de cada ser humano. Não aceita a diversidade e estimula a competição.
VML: Por que você acha que ainda hoje é tão difícil aceitar o diferente?
Cristiana: Acredito que é uma dificuldade dos seres humanos, de uma forma geral. Muitas vezes é difícil aceitar uma opinião diferente da nossa, não é? Então, aceitar uma orientação sexual diferente, uma etnia que não é a nossa, uma ideologia divergente ou outra religião também.