Fausta Cristina: O autismo como causa de vida

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Fausta Cristina de Pádua Reis, hoje com 46 anos, nasceu na cidade de Uberlândia, em Minas Gerais. É formada em pedagogia, pós-graduada em psicopedagogia e membro fundadora do Instituto Autismo e Vida. Seu contato intenso com a deficiência se deu quando sua filha Milena, a caçula de três filhos, foi diagnosticada aos nove meses de idade com autismo. Confira abaixo um pouco sobre sua história, desafios, lutas e conquistas, como mãe e profissional.

VML: Como foi sua infância e adolescência?

Fausta Cristina: Minha infância foi bem comum. Altas doses de imaginação me faziam sonhar acordada, li muitos e muitos livros e convivi com meus irmãos. Minha mãe foi generosa com o mundo, teve seis filhos, que cresceram juntos em meio a muita bagunça. Nós brigávamos tanto quanto brincávamos, até hoje, permanecemos muito unidos.

Na adolescência, fiz escolhas em ordem invertida. Casei antes de terminar meus estudos e, apenas dois anos após o casamento, tive meu primeiro filho, o que acabou adiando minha entrada na faculdade. Estudei pedagogia, me formei aos 36 anos e fiz minha pós-graduação em psicopedagogia logo em seguida. Nesta época, minha terceira filha, a caçula, nasceu e trouxe o autismo para minha vida, o que fez tudo ter um sentido totalmente diferente. Ilustração

VML: Como foi o processo de relacionamento com pessoas com deficiência? Você sempre teve contato, mesmo antes de sua filha nascer?

Fausta Cristina: Sempre atuei no Terceiro Setor. Trabalhava em uma ONG como educadora social e, quando minha filha nasceu com autismo, passei a me dedicar exclusivamente a ela. Agora, tenho atuado também como voluntária, na tentativa de aumentar a disseminação da informação sobre o autismo. Faço palestras, dou cursos, atendo a pais… Tudo de forma gratuita e sempre abordando o autismo, que é a minha causa de vida e o que eu estudo até hoje. Além disso, sou membro fundadora e voluntária do Instituto Autismo e Vida, de Porto Alegre (RS).

VML: Como é conviver com uma pessoa com deficiência? Vocês sofrem algum tipo de dificuldade ou preconceito?

Fausta Cristina: Conviver com alguém diferente do padrão dito “normal” é maravilhoso. Ganha quem convive. Temos que nos questionar sobre novas formas de agir, se comunicar e fazer o que habitualmente fazemos de forma mecânica e sem reflexão. Isso traz tudo para outra dimensão, onde o “fazer” é pensado e refletido na perspectiva do outro. Saímos do egoísmo, mesmo sem querer. É maravilhoso, embora a gente sinta alguma dor aqui e ali.

A grande dificuldade não vem da pessoa com deficiência com quem convivemos. Vem justamente da incompreensão das pessoas que querem que as outras se ajustem a tudo e não fazem nenhum ajuste nem por ninguém, nem para ninguém. Minha filha foi recusada por inúmeras escolas e já sofreu com o bullying. Isso é cruel.

VML: Você tem alguma curiosidade ou acontecimento para compartilhar com nossos leitores?

IlustraçãoFausta Cristina: Eu tenho casos que dariam um livro! Um dos mais tocantes foi quando me voluntariei, morando no Rio de Janeiro, para um trabalho de acolhimento onde a proposta era ouvir a pessoa e seus problemas.

Numa tarde, uma mulher me procurou desesperada dizendo que pensava em tirar a própria vida. Me disse sobre a dificuldade com sua filha, que já tinha mais de vinte anos. Na medida em que ela descrevia o comportamento da jovem, identifiquei traços de autismo, mas não cabia a mim fazer um diagnóstico nem colocar a minha suspeita. Conduzi a conversa com respeito e carinho e, ao final, apenas a indiquei um livro fantástico, a biografia de uma mulher com autismo.

Ela voltou a me procurar, reconheceu as semelhanças da filha com a personagem e foi encaminhada para uma associação de pais, onde pôde comprovar suas suspeitas, e mais tarde, obteve o diagnóstico correto da filha.

O fato de ela ter vindo falar justamente comigo e de ter descoberto o autismo da filha por este caminho – diagnósticos tardios de autismo são bem comuns – foi algo incrível, que reforçou em mim a certeza da necessidade da divulgação de informação sobre este transtorno.

9 respostas para “O que aprendi ao falar no TEDx Talks”

  1. Bom dia. Sou pessoa que gagueja e a vida toda sofri com essa dificuldade. Não consigo me expressar a maneira que gostaria. A gagueira me causa sofrimento, tenho 36 anos e sempre gaguejei. No trabalho isso me causa desconforto, porque as pessoas não entendem o que é a gagueira, alguns riem, outros fazem piadas, outros tem pena de mim. Em entrevistas de emprego sou excluída.
    Não sou uma pessoa considerada ” normal”, mas também não sou considerada deficiente. Esse projeto de lei me trouxe esperança. Muito obrigada pela postagem.

  2. Vcs que tem alguma diferença física dos outros, nuncam se sintam inferiores, somos todos iguais. Deus, Ele nos fez perfeitos com muito amor e todos somos capazes, nunca deixe se elevar pelo sentimento ruim de alguém que não sabe se expressar, qualquer ser humano pode superar suas dificuldades, se orgulhe de vcs, são capazes de fazer sempre o melhor, e use a seu favor: a paciência, benovolência e a calma e toda a sabedoria que vcs tem. Um grande abraço meus irmãos.

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